CAPÍTULO 3

Cidade símbolo do rio Doce reteve cadáveres e destroços da tragédia

LUCAS FERRAZ
AVENER PRADO

ENVIADOS ESPECIAIS A RIO DOCE E GOVERNADOR VALADARES (MG)

Quando a avalanche de lama estava prestes a entrar na formação do rio Doce, no município homônimo a 91 km de Mariana (MG), Gerbus Siqueira e dezenas de outros homens a esperavam na ponte de entrada da cidade.

Ele, como funcionário da Defesa Civil municipal. A maioria dos outros, por mera curiosidade.

O município não foi avisado pela mineradora Samarco, presidida por Ricardo Vescovi. O frenesi, porém, já estava instalado desde a noite anterior, quando começaram a circular notícias sobre a chegada de mais de 40 bilhões de litros de rejeitos da barragem em Mariana.

Com 2.600 habitantes, a cidade de Rio Doce deve sua existência ao rio de mesmo nome, que se forma em seu território.

Por volta das 7h da manhã de 6 de novembro, um dia depois do rompimento da barragem, a lama adentrou no rio que abastece uma das maiores bacias hidrográficas da região Sudeste e amplificou os danos do desastre ambiental.

Segundo Gerbus, começaria naquele dia uma verdadeira operação de "guerra".

Avener Prado/Folhapress
O rio Doce em trecho na cidade homônima que recebeu destroços da tragédia de Mariana (MG)
O rio Doce em trecho na cidade homônima que recebeu destroços da tragédia de Mariana (MG)

Ao chegar no rio Doce, uma parte considerável dos destroços tragados pela avalanche –troncos, árvores, pedaços de veículos e casas, animais mortos, cadáveres– se reteve na barragem da Usina Hidrelétrica Risoleta Neves, que opera no município por um consórcio que tem a Vale como um dos sócios.

A maior mineradora do Brasil –presidida por Murilo Ferreira e uma das controladoras da Samarco– também armazenava rejeitos de sua operação em Mariana na barragem de Fundão.

Em Rio Doce, a primeira enxurrada de lama rebateu nas comportas da usina, "comendo" ainda mais pastos e terrenos ribeirinhos. Uma estrada vicinal foi danificada.

Pelo menos seis corpos foram encontrados num raio de 15 km. Gerbus participou de alguns dos resgates.

O mais triste, conta, foi retirar do rio o cadáver de Tiago Damasceno Santos, 7, que vivia em Bento Rodrigues, distrito de Mariana completamente destruído.

"O corpo estava perfeitinho, sem roupa, como todos os outros. A sorte foi que ele ficou preso em uma pedra enlameada. Quer dizer, sorte para a família, que pôde ao menos enterrá-lo", completa.

"Também encontramos um corpo que só existia da cintura para cima, já estava em putrefação. Foram dias horríveis, muitos homens não aguentaram trabalhar. Em um dos resgates, precisamos ficar horas ao lado do corpo até o rabecão chegar de Mariana para a perícia, pois os cachorros ameaçavam comer o cadáver", relembra.

Avener Prado/Folhapress
Limpeza das margens do rio Doce na cidade de Rio Doce (MG)
Limpeza das margens do rio Doce na cidade de Rio Doce (MG)

SUJEIRA

Dependente da pecuária e do que arrecada com a atividade da usina, o município de Rio Doce, três semanas depois da chegada da lama, ainda tinha rotina alterada. Homens e caminhões contratados pela Samarco trabalhavam na retirada dos destroços. A área da usina afetada despertava a atenção de curiosos pelo roteiro macabro.

"A revolta na cidade está muito grande", conta o prefeito Silvério da Luz, 35. "O rio, que era usado para a pesca e para o lazer de todos, acabou".

Desde a chegada da lama, a usina hidrelétrica parou de operar. Na última semana de novembro, a Justiça obrigou que ela seja esvaziada para, caso haja novo rompimento nas duas barragens que sobraram no complexo da Samarco em Mariana –elas estão prejudicadas e em reforma–, o lago vazio consiga absorver a avalanche, reduzindo os danos.

A usina desativada significa em perdas para o município, lamenta o prefeito, incomodado também com outros males surgidos, como a proliferação de mosquitos e pernilongos.

"Todo o lixo parou aqui. Pedimos à empresa que leve tudo de volta, não temos nada a ver com isso e não o queremos aqui", afirma.

A mineradora informou que está reunindo os escombros e que irá levá-los para uma área ainda não definida. Destroços também estão sendo retirados de Santa Cruz do Escalvado, município vizinho que também abriga parte das instalações da usina hidrelétrica.

A uns 150 km do município de Rio Doce, numa região conhecida como Vale do Aço por causa do polo siderúrgico (e que não foi afetada pelo desabastecimento de água), o traçado do rio se encontra com a Estrada de Ferro Vitória Minas, de responsabilidade da Vale.

O brilho do minério de ferro nos rejeitos que invadiram as águas combina com o dos vagões carregados do metal (e seus derivados). A planície favorável fez com que rio e trem seguissem lado a lado durante quase todo o percurso até o mar do Espírito Santo.

O corpo estava perfeitinho, sem roupa, como todos os outros. A sorte foi que ele ficou preso em uma pedra enlameada. Quer dizer, sorte para a família, que pôde ao menos enterrá-lo

GERBUS SIQUEIRA, funcionário da Defesa Civil de Rio Doce (MG), sobre o resgate que mais o emocionou